quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Oh Darkness! My old friend...

Sabe quando parece que tu não está nesse mundo? Me sinto dopada sem ter tomado um remédio sequer. Não ouço o que os outros dizem, não participo das discussões, estou ali de corpo presente, com a alma em outra dimensão. É uma sensação de estar em dois lugares ao menos tempo, em que ambos disputam pela minha atenção, e não sei lidar. Ao mesmo tempo em que estou imersa nesse outro mundo, algo de cá me puxa de volta, apenas para certificar de que estou ouvindo ou prestando atenção. Concordo para ser deixada em paz, e retorno a viajar novamente. Nada de interessante no mundo real, as mesmas futilidades de sempre. A viagem a esse outro lugar, diferente, inusitada, é que tem me mantido afastada das minhas ansiedades. Ansiedade essa que me fazia buscar frequentemente pela atenção de alguém, que na verdade não se importava muito. O mundo está cheio de pessoas ávidas por atenção, ninguém mais se preocupa com os outros, apenas de forma superficial. Àqueles a quem depositamos mais esperanças, de nos tirar do vazio, da escuridão, são os que tendem a nos decepcionar mais. Pois isso são coisas que somente nós podemos fazer por nós mesmos, é uma ingenuidade atribuir tal função a alguém. Essa falta de desatenção com o mundo, me salva e me impede de cometer muitos erros. Em vez de sair por aí procurando, clamando por algo, apenas fico tácita, imóvel, olhando para um lugar fixo, sem nada estar vendo. Quantas vezes o coração já disparou quase pulando pra fora do peito? Só sei que todas foram em vão. Muitas vezes já sofri, achando que seria a última vez, sem saber quando iria me recuperar. Todas essas vezes a dor parecia infinita, todas as vezes eu achava que não iria aguentar. No entanto aqui estou, com o olhar perdido em meio a multidão, sem saber a quantas horas estou em devaneio. Vem me buscar.

- Por Thamara Venâncio.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Memórias de Salem...

Salem nasceu dia 22 de julho de 2014, um mês depois ele veio para minha casinha para que eu cuidasse e amasse ele. Muito pequenino e com pêlos eriçados e negros, ríamos sempre muito de Salem, aquela coisinha pequena e que sempre fazia graça. Chegou um pouco desconfiado, grudou em mim igual um carrapato, mas não demorou 24 horas e já estava explorando o local. Nunca antes tive um gatinho, sempre preferi cachorros, mas resolvi adotar quando uma amiga ofereceu, e não me arrependi nenhum dia sequer. Ele era doce, bagunceiro, carente. Me acordava 5:30 da manhã todos os dias, fazia muita raiva. Parecia que tinha um reloginho na barriga, dava a hora, ou miava até acordar todos da casa, ou jogava algo que tinha na cabeceira da minha cama em cima de mim. Uma vez foi uma caneca, meu nariz ficou rachado. Até hoje conto essa história para as pessoas morrendo de rir. Como eu amava as provocações dele. Passava o dia dormindo, quando eu deitava de noite para dormir, parecia que um foguinho ascendia dentro dele. Olho arregalado, todo preto, e orelhinha pra trás. Eu via e já dizia: "Vish, tá com capetinha no corpo, agora que não durmo mesmo". Daí como já sabia que seria impossível dormir, eu levantava e ia brincar. Tinha que correr atrás dele, brincar de esconder pra ele me procurar. Ele adorava quando eu escondia atrás de alguma pilastra, e escondia a cara e mostrava, escondia e mostrava, até ele dar um salto e vir me pegar. Apertava muito aquela barriga gorda gostosa, toda banhudinha. Ele agarrava a minha mão e me arranhava toda. Tenho até hoje cicatrizes no braço dos arranhões que ele me dava quando brincava com ele, eu adorava. As pessoas ficavam abismadas com aquilo, mas eu sempre gostei de ficar com aquelas marquinhas, fazia de propósito. Parecia um canguru quando mexia na sua pancinha, deitado de costas, batia as patinhas traseiras igual a um. Mas eu me sentia mesmo uma mãe quando ele dormia na minha cabeça à noite, ou quando se encaixava na minha cintura. Ele era tão pequenino, foi esticando, ficando cada vez mais engraçadinho. Os pêlos foram ficando bonitos, principalmente os do rabo dele, que ficaram grandes, e todos perguntavam de que raça ele era, de tão bonito que ficou. Na verdade não tinha nenhuma, era meu vira latinha pretinho sem vergonha. Muitas vezes eu ficava o dia inteiro fora de casa, tinha acabado de começar meu mestrado, e sempre quando chegava em casa era aquela carência, miava, miava, esfregava, esfregava, pra logo depois sair correndo, se enfiar em uma caixinha qualquer que tivéssemos dado para ele. Ah, a caixinha! Que felicidade foi a primeira caixinha de papelão que dei pra ele. Como disse, nunca antes tive gatos, demorei a saber o que eles curtiam, descobri que eram muito diferentes de cachorros. Recebi a dica da caixinha uma vez e foi certeiro, como ele adorava! Guardo a fotografia até hoje dele com a primeira caixinha. Mas que gatinho doce era esse meu. Todos que chegavam lá em casa ele ia receber com o maior carinho, fazia com que todos se apaixonassem por ele. Sempre pensei que gatos fossem mais antipáticos, mas o Salem não era. Talvez por sempre ter criado somente cachorros, que eu criei ele diferente também, mais alegre, mais receptivo. No entanto, os momentos de mau-humor tinha também. Nossa, quando era assim, só cristo pra aguentar o Salem. Já com um aninho e pouco, ele mudou muito, gostava de ficar quieto, era mais rabugento, e eu adorava fazer raiva nele. Ele chegou a ficar bem bizarro, com umas manias estranhas, como quando eu acordava no meio da noite e ele estava assentado em frente ao meu rosto me encarando. Que susto eu tomava! Mas era tão bom, porque daí começávamos a brincar. Isso quando eu acordava naturalmente, e não de um sobressalto com um tapa na cara, que era o de costume. Quem tem gato sabe, se o bichano não te acorda de vez em quando com um tapa na cara, aí tem um problema. Salem nunca teve esse problema, a não ser o de excesso dele. Me irritava tanto quando eu custava a dormir e depois ele fazia isso. Muitas vezes era só um pretexto para se enfiar debaixo das minhas cobertas, principalmente nos dias frios. Como eu amava aquela pretinho safado sem vergonha. Só deus sabe, quando hoje recebi a notícia de que ele morreu envenenado, o quanto fiquei triste e com o coração partido. Ele estava há algum tempo na casa da minha mãe, em minha cidade natal. Iria trazer ele de volta quando retornasse das férias, mas não vou ter a oportunidade. Porque alguém, acima da lei, se achou no poder de colocar veneno em alguma comida, para matar esse pobre anjinho, que eu cuidei sempre com muito carinho. Ele foi vítima da maldade humana. E a maldade humana não espera, ela estraga toda felicidade a qualquer custo. Na verdade, a que custo? Meu pretinho bebê se foi, e eu fiquei ainda mais com menos esperanças no ser humano. Se antes o vazio já estava presente aqui dentro, agora ele se alastrou e tomou conta. Um gatinho tão dócil, lindo e brincalhão, que até quem não "curtia" gato se simpatizava. Bem, ele se foi, e não foi por nenhuma doença. Não foi porque estava na hora, e além da tristeza, vem junto a indignação. Hoje o mundo pra mim ficou mais triste e só me restam agora essas memórias dele e muitas outras que eu guardo comigo.

Salem
☼ 22/07/2014
♰ 20/12/2016

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Still nothing...

No momento em que tudo aparenta fluir tão bem, e que presumo que esteja tudo no lugar - todas as felicidades acerca das novas amizades, meus ganhos em minha pesquisa acadêmica, o alcance de um emprego adequado - , no instante em que me vejo só e distante de toda a correria da vida diária, me brota os sentimentos de solidão. Aqueles sentimentos que formigam dentro da gente, que estavam ali na espreita, aguardando uma chance de manifestar. A ansiedade nessas horas se materializa, a cabeça vai a mil tentando se ocupar com qualquer coisa que não seja a sensação de vazio, de falta, de solitude. Tais momentos se igualam a de um exílio, de banimento dos outros, da falta de pertencimento a um lugar ou alguém. Pois nada me pertence e não pertenço a ninguém. Parece uma ótima expressão pra se levar pra vida, se não fosse o fato de que isso nos corrói de um modo ou de outro. Dizem que não pertencer a alguém ou a um lugar é um ganho e tanto, um ganho da nossa autonomia, da nossa emancipação. O que poucos dizem é o que fazer com esse comichão que nos devora por dentro, que nos relega ao ostracismo, a exclusão. O que fazer quando o caminhar só já não satisfaz? O que fazer com a certeza de que nada construído nesse mundo moderno é feito para durar? O que fazer com tudo isso que é fadado ao fracasso? O que fazer quando não sabemos mais o que fazer?
As perguntas parecem um labirinto, na qual a saída seriam as respostas, e não parecem havê-las. Dizem que é preciso paciência, que é preciso viver um dia por cada vez, que é preciso tentar, tentar e tentar até encontrar alguém por quem vale a pena insistir. Mas eu te digo, eu não consigo tentar, eu não consigo arriscar. Eu sou daquelas que falha e nunca mais quer viver a tal maldita experiência outra vez. Eu sou daquelas que tem medo. Eu sou daquelas que não vê esperança e que acha que a liquidez já tomou conta desse mundo. Tudo dilui rapidamente, num piscar de olhos. Eu diluo vagarosamente, pois sigo vivendo e me reconhecendo. Eu vou me diluindo em pequenas quantidades, e julgo quando e com quem vale a pena tentar. Parece um jogo, em que eu fico contando as fichas que me restam antes de virar pó.

- Por Thamara Venâncio.